Comportamento

Tráfego de travessas

janeiro 2012

A cozinha de todo jovem guarda uma coleção de declarações de amor. Nos armários, nas gavetas, em todo lugar, há declarações quadradas, redondas, de inox, de vidro ou plástico. São mensagens que se acumulam a cada final de semana, materializadas em recipientes que carregam sobras de almoços e jantares.

O tráfico de travessas, panelas, potes e fôrmas é a maneira que mães e pais encontram para se sentirem presentes na vida dos filhos, mesmo à distância. Pois não há dúvidas que os rebentos ingressam numa dieta condenável assim que põem os pés para fora de casa. O feijão da mamãe é trocado por pizzas congeladas. O churrasco do papai vira tele-entrega de sanduíche. Para estancar a inevitável perda de nutrientes, substâncias responsáveis por estancar qualquer doença segundo a medicina maternal, traça-se uma estratégia engenhosa: turbinar as receitas.

É espantosa a frequência com a qual mães e pais fazem comida de mais “sem querer”. Décadas aprimorando as mesmas receitas sempre para o mesmo número de pessoas não foram suficientes para ensinar aos pais as quantidades adequadas de cada ingrediente para alimentar todos sem sobras. Refeições familiares convivem com uma hipocrisia conveniente para os dois lados: estômagos cheios e panelas pela metade. Na verdade, tudo faz parte de um plano silencioso. O almoço superdimensionado gera sobras generosas e uma desculpa para mães sacarem suas travessas do armário e praticamente obrigarem seus filhos a aceitar uma porçãozinha de risoto, um pedacinho de lasanha ou o restinho do molho da massa. Mesmo no diminutivo, a sobra é suficiente para alimentar dois adultos com folga.

Um pouco de teatro ajuda a esconder a hipocrisia. Quando todos estão desistindo de limpar as panelas, a mãe salta da cadeira e pergunta “Vocês vão deixar esse restinho?” como se já não tivesse separado as travessas com antecedência para transportar os restos. Antes de ir embora, carregando uma pilha de restos no colo, é a vez do filho dar uma de ator e dizer “Ah, mãe, não precisa”, como se a geladeira estivesse abarrotada. Com o tempo, as declarações de amor em formato de fôrmas e potes se somam ao ponto de entupir as gavetas. Constrangido, o filho precisa devolve-las de tempos em tempos - na torcida silenciosa de revê-las em breve.

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