Meio Ambiente
A natureza como inspiração
novembro 2011
Um pequeno besouro do deserto da Namíbia tem muito a nos ensinar sobre como produzir água potável. Todas as noites, o inseto sobe as dunas e sente a brisa bater na sua carapaça. Como a estrutura permite que o besouro libere calor na atmosfera, seu corpo fica um pouco mais frio do que o ar do deserto e a água que voa com o vento condensa na sua carapaça. Ao final da noite, o inseto levanta as peças da sua armadura corporal e leva a gota de água até a boca, tomando o gole diário que lhe permite sobreviver no ambiente árido.
A história do besouro é apenas um exemplo da engenhosidade da natureza para resolver as dificuldades impostas para a vida na Terra. Nos últimos anos, designers, arquitetos, engenheiros e inventores passaram a olhar para estas soluções naturais em busca de inspiração para suas criações, um movimento conhecido pelo termo biomimética. Copiar a natureza faz todo o sentido, já que os projetos do planeta Terra foram desenvolvidos ao longo de 3,8 bilhões de anos de tentativa e erro. Se o sistema do besouro ainda está em uso, é sinal de que deu certo e que diversas opções foram descartadas pela evolução natural. Nenhuma empresa tem condições de manter um setor de pesquisa e desenvolvimento que possa competir com os bilhões de anos de testes e a sabedoria da natureza. “Dado este nível de investimento, faz sentido usá-lo. Há um mundo de beleza e eficiência para ser explorado aqui usando a natureza como uma ferramenta do projeto”, disse o arquiteto Michael Pawlyn, um dos entusiastas do biomimetismo, em palestra do projeto TED, evento intinerante sem fins lucrativos que visa incentivar as boas ideias.
Embora o termo tenha sido inventado na segunda metade do século 20, a biomimética ganhou projeção somente ao final da década de 90 com o livro “Biomimética”, de Janine Benyus, e só agora começa a entrar no vocabulário de arquitetos e designers. A ideia é simples: copiar as soluções da natureza para desenvolver produtos e sistemas mais eficientes em todos os sentidos, do econômico ao ambiental. O besouro, por exemplo, serviu de inspiração para a construção de uma estufa que rouba a água do vento oceânico para irrigação e produção de plantas e alimentos. Já percebeu como árvores levam a água e seiva até a copa sem precisar de bombas elétricas? Um sistema inspirado nas árvores está sendo testado em edifícios para levar água até o último andar sem a necessidade de equipamentos. O tubarão-das-galápagos possui uma pele diferente que repele o acúmulo de bactérias. Pequenas pretuberâncias, ou dentículos, impedem micro-organismos de se instalar no corpo do tubarão. Com inspiração na biomimética, uma empresa desenvolveu um tipo de superfície hospitalar que possui dentículos copiados do tubarão e que dificultam a vida das bactérias.
Dois problemas que estão procupando cientistas, o excesso de gás carbônico na atmosfera e a falta de água potável, já ganharam abordagens biomeméticas. Corais estão estruturados com o auxílio de CO2 e empresas já estudam como transformar a molécula como a base de edifícios, substituindo o concreto. Na natureza, separar o sal da água é uma atividade trivial. Nossos rins fazem isso a todo momento. Mas dessalinizar os oceanos ainda é um desafio de engenharia para os humanos. Entusiastas da biomimética estão tentando copiar a membrana das nossas células que separam o sal da água para criar sistema de dessalinização de larga escala.
Na biomimética, todo problema começa com uma pergunta: como a natureza resolveu isso? Existe uma grande chance de que uma solução esteja ao nosso redor, na terra, no ar ou nos animais.
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