Comportamento
Levante na cozinha
maio 2010
Pode um homem mudar a cultura de todo um país?
Um chef inglês está tentando. No início do ano, o cozinheiro, que tem um programa na televisão norte-americana (distribuído para vários países), estreou um novo seriado com o objetivo de discutir a cultura alimentar dos Estados Unidos, um dos países mais obesos do mundo. A série Food Revolution mostra, em seis episódios, a cruzada do cozinheiro e apresentador de TV na cidade de Huntington, estado de West Virginia, considerada por estatísticas oficiais como o local mais insalubre do país do ponto de vista alimentar.
Embora as estatísticas sejam imprecisas (o que dá margem de debate sobre os critérios de escolha de Huntington) e o inglês enfrente oposição de muitos cidadãos que não querem ser tutelados por um estrangeiro, a revolução tem recebido apoio de líderes de opinião porque toca num nervo da sociedade americana. O apresentador repete o argumento como um mantra: pela primeira vez na história, a atual geração de jovens tem uma expectativa de vida menor que a dos seus pais em razão de péssimos hábitos alimentares. Em um episódio, o chef leva alimentos frescos para uma sala de aula e pergunta para as crianças se elas sabem dizer o nome dos vegetais. Diante de um tomate, uma criança pergunta: "é uma batata?". Em outro momento, o cozinheiro esvazia a geladeira de uma família obesa e encontra apenas produtos industrializados, como pizzas, salsichas e frango empanado - tudo marrom e dourado, nenhum verde. A mãe reconhece o dano à saúde dos filhos, mas justifica: comprou as pizzas a US$ 0,50 cada.
O brasileiro talvez tenha dificuldade de entender o debate já que, em qualquer capital, é fácil e barato almoçar num buffet livre e encontrar farta variedade de saladas, frutas e carne. Comida de verdade, como diria o chef. Mas, nos Estados Unidos, a industrialização da alimentação chegou a níveis preocupantes para órgãos de saúde e de governo. A obesidade é tratada com epidemia pública. E não existe a instituição do prato feito, com arroz, feijão, bife e salada em qualquer esquina.
Na Inglaterra, o apresentador foi bem sucedido numa tentativa similar. Depois de um seriado em que mostrava o que era servido às crianças nas escolas inglesas, ele foi recebido pelo primeiro-ministro britânico, que destinou mais verbas para melhorar a alimentação das cantinas. O objetivo da iniciativa, mais do que emagrecer os americanos, é mostrar que a cultura gastronômica industrial está apoiada em argumentos frágeis, como preço baixo e rapidez de preparo - além de afastar o consumidor do fogão e do contato com os produtores de alimentos. Para provar, o cozinheiro prepara em frete às câmeras um empanado com peito de frango, ervas, azeite de oliva, tudo saudável, em oito minutos. Na embalagem da versão industrial e congelada, o frango empanado fica pronto em 12. E, segundo ele, custa mais caro.
O chef pode fracassar em sua revolução, mas deixará o legado de recuperar o valor da refeição caseira. Valor traduzido em economia de custos com saúde, em tempo gasto com visitas a médicos. Um legado saboroso.
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