Comportamento
Heróis do cotidiano
setembro 2009
Pais não curam feridas. Os superpoderes estão nos dedos e lábios das mães, que fecham machucados da pele e da alma com beijos e carinhos mágicos. As forças da maternidade remetem à visão de raio-x do Super Homem, ao cinto de utilidades do Batman, ao instinto protetor do Homem Aranha, que, como as mães, larga tudo evitar o Mal - no caso das mães, o Mau praticado contra os seus filhos.
As realizações dos pais jamais chegariam ao cinema ou às histórias em quadrinhos. Mas não existe outro herói no dia-dia. Pais nos salvam de armadilhas cotidianas, ações que passam despercebidas do olhar amplo da maternidade, concentrado em proporcionar tudo de essencial para a vida das suas crias. Enquanto isso, quem ensina os filhos a trocar uma lâmpada? Quem, se não os pais, são capazes de instalar um aparelho de DVD? Somente os pais salvam os filhos do massacrante ritual de cartórios, fotocópias e burocracias que atravancam o início da vida adulta.
Pais são capazes de abrir o controle remoto da garagem,
compreender o circuito eletrônico, reposicionar a bateria e - milagre! - desarmar mais uma armadilha da vida, o infeliz portão da garagem que se recusa a permitir passagem. Se quebra o pé do sofá da sala, somente pais têm a sabedoria para decifrar a cola certa capaz de ressuscitar o móvel. Pais deslizam pelo infinito universo das ferragens como Batman
circula entre as sombras de Gotham City.
Enquanto mães tratam de evitar a exposição das crias ao perigo, os homens, turbinados por sua testosterona desafiadora, ensinam crianças a andar de bicicleta, a chutar uma bola, a pegar um ônibus, a tomar riscos e encarar a vida. Do tema de casa à torneira da pia, da fórmula de báskara à chave phillips, o superpoder dos pais se revela ao
transformar pequenas armadilhas do Mal em singelos contratempos.
Pais não curam feridas. Mas seria impossível viver sem eles.
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