Comportamento
A reinvenção do café
setembro 2009
O que seriam dos ingleses e dos indianos sem o chá? Como seria a Alemanha sem cerveja? O que seria do Brasil sem o café?
Raramente o país é pensado nestes termos, como a terra do café. O Brasil é o país do futebol, o país do futuro, mas ninguém lembra que o grão torrado foi a principal mola econômica na primeira infância desta nação. Mas, aos poucos, a bebida vai tomando seu lugar de destaque. Não na economia, já que é impossível retomar a importância do passado _ até os anos 50, o café respondia por mais de 60% das divisas brasileiras.
É na cultura que o Brasil vai redescobrindo a infusão. Nos últimos anos, os brasileiros parecem ter se dado conta de que produzimos o melhor café do mundo - isso mesmo, o melhor café do mundo. Bares e restaurantes voltaram a dar destaque ao sabor marcante do produto.
Talvez por desleixo, os brasileiros passaram décadas tratando o mal o café. Armazenando em garrafas térmicas, usando água ruim, reutilizando filtros, enfim servindo um café sem vergonha, os brasileiros foram desistindo da bebida. Desde a década de 60 até os anos 80 o consumo de café caiu quase que pela metade. Em 1965 era de 4,72 quilos de café torrado e moído por habitante ao ano. Em 1985, eram 2,27 quilos segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic).
Nesse meio tempo, uma mudança cultural ajudou a derrubar o consumo. Os cafés deixaram de ser o ponto de encontro das grandes cidades, onde o brasileiro botava o papo em dia e comentava os resultados de futebol. Foi preciso chegar incentivo estrangeiro para que o país voltasse a consumir a bebida. Com as máquinas italianas de café espresso (com "s", como você já leu aqui no Mix Tramontina) e chegada de investidores de fora do país que passaram a comprar e desenvolver as lavouras do Sudeste, principalmente no Sul de Minas Gerais, a melhor região do planeta para plantar café, o brasileiro voltou a tomar a bebida - agora alçado a produto refinado.
Em 2008, a Abic registou um consumo per capita de 4,51 quilos de café, resultado que se aproxima do consumo histórico de 1965. Grande parte do sucesso das últimas décadas ao esforço da indústria em certificar as boas marcas com um selo de qualidade. Mas talvez tenha sido consequência do desejo do país de voltar a produzir e prosperar. Afinal, quem consegue trabalhar antes de tomar um bom café?
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