Comportamento

Ele vai se acostumar

setembro 2009

Esperado para o tradicional almoço de domingo, o novo genro entra com um bouquet de flores em uma mão e uma garrafa de vinho na outra. Na primeira visita à casa da namorada, quer deixar boa impressão. Recebe um abraço afetuoso da sogra e um aperto de mão protocolar do sogro. A partir daí vira um observador desse estranho universo chamado "família da namorada".

Chama a atenção, logo na entrada, que o almoço marcado para o meio-dia, vai atrasar. A sogra ainda parte cebolas e a mesa não está posta, mas ninguém parece se importar com o potencial atraso. Pelo contrário, o sogro abre a garrafa de vinho e convidada para assistir futebol europeu na TV.

Enquanto os dois ultrapassam a barreira das introduções iniciais, com a intervenção da namorada e filha, toca o interfone. Um tio que não havia confirmado presença está anunciado sua chegada. Para um cozinheiro tradicional seria uma tragédia, mas a sogra parece não se incomodar e tira da geladeira os ingredientes que vão engordar a refeição. O jogo acaba, o sogro tomou quase toda o vinho sozinho e ligou uma música. "Ah, meu disco preferido!", grita a mãe da cozinha. No ouvido do genro, a namorada cochicha: "É o mesmo disco, todos os domingos. Tu vai te acostumar".

Sentados à mesa, duas horas de atraso, o genro é servidos com bifes, batata frita e lasanha, uma combinação que não fazia sentido no seu repertório gastronômico. A carne está visivelmente queimada, mas o tio elogia como se estivesse jantando num hotel. A lasanha, no entanto, está espetacular. O genro nunca comeu nada igual.

Findo os pratos principais, vem a salada. "Como assim?", pergunta ao ouvido da namorada. "A salada não teria que vir antes?". A garota responde: "Aqui é assim. Meu pai prefere. Tu vai te acostumar". Depois de comer a salada de sobremesa, o genro se levanta para ir ao banheiro. "Tu já encerrou?", pergunta a sogra, simpática. "Aqui, todo mundo fica na mesa até o doce de abóbora da vó Neli". Constrangido com o sutil puxão de orelha, senta e espera o doce, que não chegaria entes de 20 minutos.

O novo casal quer ir ao cinema e inicia as despedidas. O sogro chama o genro para tomar um licor da sua terra natal, de uma fruta de nome estranho. "Sabe, a minha filha é muito especial. Todo o domingo tu vai tomar um licor comigo para dizer como estão as coisas". A bebida - de gosto esquisito - desce amarga.

No carro, a namorada, orgulhosa com a primeira participação do amado no universo familiar, pergunta como foi a experiência. "Vou me acostumar", diz o sobrevivente. "Vou me acostumar".

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